O case do escorregador gigante.

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Dia desses, curtindo meu fim de férias, passei em frente a uma loja de surf e vi um pôster do Mark Foo na vitrine. Bem empoeirado, devia estar ali só para fazer uma homenagem. Foo foi um dos maiores surfistas de ondas grandes de todos os tempos. Meu ídolo na juventude, quando eu ainda me jogava nas marolas gigantes (?) do mar do litoral sul. Se estivesse vivo, estaria prestes a completar 60 anos. Além de surfista, foi um mestre do marketing e um exemplo de gestão da própria carreira. Numa época em que o surf ainda engatinhava como berço de atletas midiáticos e com grandes contratos promocionais, a quantidade de pessoas que Foo conseguia mobilizar para fazer suas façanhas acontecerem era surreal.  A cada onda, sabia se posicionar sempre na frente dos melhores fotógrafos de surf. Mantinha a calma em situações verdadeiramente de pressão. (Uma reunião para apresentar a campanha do ano não é nada perto de surfar uma onda de 15 metros). Buscava sempre a excelência, a superação, o drop suicida. Cada caldo era só mais uma oportunidade para provar sua resiliência. Até que não sobreviveu, depois tomar uma vaca* surfando em Mavericks, uma das ondas mais perigosas do planeta.

Mark Foo foi para o surf de ondas grandes o que Ray Kroc foi para o Mc Donalds. O americano levou uma lanchonete caipira ao mundo inteiro surfando algumas ondas absurdamente perfeitas: a do hambúrguer rápido, das franquias e do investimento imobiliário. O mais perto que chegou de tomar uma vaca foi quando teve que pagar 2,5 milhões de dólares para os irmãos McDonald’s – o que deve ter doído apenas no ego: o que são 2,5 milhões quando, depois de alguns anos, se fatura alguns bilhões? A história de Kroc eu conheci também no fim das ferias, pela Netflix. De tudo o que ele construiu, o que mais me chamou a atenção, e que inspira o nome do documentário (Fome de Poder) aconteceu nos bastidores, ali pertinho da frigideira de batatas: a puxada de tapete que o “fundador” da empresa dá na dupla de irmãos, colocando-se para o mundo como o criador da marca.

As ondas do Mark e do Kroc (com exceção da trairagem) podem inspirar todo empresário, empreendedor, profissional, qualquer um que busque excelência acima do nível das marolas. Mas nem se compara com outra, que vi também nesse período de merecido ócio: a gigantesca onda azul do escorregador de lona.

Passei alguns dias (muitos dias) com meus filhos e sobrinhos no interior de São Paulo. Os dias seriam perfeitos pra eles: muito mato, muito espaço, muita brincadeira para inventar. Mas tinha um porém: não é que a geração de hoje não sabe inventar brincadeira? Cada atividade da molecada durava meia hora, no máximo. Depois já vinham pedir arrego. Arrego = jogar no iPad. Foi nesses intervalos entre correr descalço e correr no Minecraft que tentei colaborar na criação de algumas atividades extra-interior-de-casa: cabo de guerra, acampamento, trilha, guerra de Nerf. Brincadeiras focadas num público muito exigente, sedento por resultados de diversão imediatos. Meu bônus? Mais tempo para tomar cerveja tranquilo.

Mas, de todos os meus insights durante o brainstorming etílico, nenhum se comparou ao da minha esposa: botar 20 metros de lona ladeira abaixo, molhados e besuntados de sabão. Se o Mark Foo visse o tamanho daquilo ia convocar uma meia dúzia de fotógrafos e botar pra baixo. Se o Ray Kroc estivesse lá, ia comprar mais lona e sair vendendo pela cidade, cobrando royalties. A ideia da minha esposa não foi inédita, mas a situação em que ela teve a ideia é que agregou valor: o cenário era de crise (não parava de chover); o board – as crianças – estava impaciente. O budget era limitado: todos os 20 metros de plástico custaram uns 50 reais, mais 3 reais dos potes de detergente.

Tirando alguns hematomas, a brincadeira fez foi um sucesso . Eu, na função de produtor associado, fui o responsável por esticar o plástico, molhar, ficar jogando sabão e até surfar uma ou duas vezes, deslizando em pé montanha abaixo. Mark Foo ia ficar orgulhoso. Mas quem ia me achar brilhante é Ray Kroc: no final do dia, teve gente achando que a ideia do escorregador de lona tinha sido minha.

*Vaca: 1. tombo, caldo, a queda do surfista na onda. 2. a fêmea do boi.

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